Bem, como iniciar a resenha de hoje?
Poderia fazer isso de tantos jeitos, mas acho melhor então
começar pelo começo, não?
O livro de hoje é “Andróides sonham com ovelhas elétricas?”
.......... sim, queridos leitores, essa pergunta é o titulo do livro.
Alguns de vocês talvez não conheçam a obra em si, mas ou já
ouviram falar ou já assistiram a sua adaptação para os cinemas. Ou vão me dizer
eu jamais sequer ouviram falar em Blade Runner?
Sim senhoras e senhores, o filme do grande Ridley Scott,
estrelado pelo fantástico Harrison Ford, foi uma adaptação deste livro. E cá
entre nós vou me focar um pouco na diferença entre as duas obras, mas não
agora.
O autor do livro é Philip Kindred Dick, ou apenas chamado
por muitos de PKD, um californiano nascido em 1928 e considerado um dos maiores
autores de sci-fi da história.
Algumas pessoas gostam de citar como os melhores o ABC da
ficção cientifica (Asimov, Bradbury e Clarke), eu particularmente prefiro
sempre dizer o ABCD, já incluindo Dick. E por que eu coloco este celebre homem
no mesmo patamar que os deuses do sci-fi? Por que ele é.
Alguém aqui já viu o já citado Blade Runner? Ou Total Recall
com Arnold Schwarzenegger? (aqui no Brasil chamado de O Vingador do Futuro?) E
que tal Minority Report estrelado pelo Tom Cruise? Ainda não? Talvez então
Agentes do Destino que tem Matt Damon? E tantos outros que eu poderia citar kk
Veja bem, este singelo escritor é autor não apenas de um dos
meus livros prediletos de ficção cientifica (o qual é assunto dessa resenha),
mas também dos contos que deram origem a todos os filmes que acabei de citar e
vários outros. Contos que já estão nas nossas terras tupiniquins numa excelente
antologia da editora Aleph intitulada Realidades Adaptadas. Livro o qual quero
muito ler já que não é apenas de um dos meus escritores prediletos, mas também
editado por uma das minhas editoras brasileiras prediletas. Que por sinal, me
ganhou exatamente com o livro que finalmente irei comentar.
Andróides sonham com ovelhas elétricas? Uma pergunta
intrigante não acham? E garanto que ao ler o livro vão achá-la ainda mais.
A obra trata do caçador de andróides Rick Deckard, nos
cinemas interpretado por ninguém menos que o querido Han Solo. O senhor
Deckard, na obra literária um homem casado (uma das diferenças do filme, que
citarei futuramente), caçador de andróides e com uma ambição até que peculiar
para alguém que vive numa sociedade como a nossa. Possuir um animal de verdade.
Tentem compreender Rick e sua ambição. Ele vive num planeta
Terra devastado pelo que chamam apenas de a Poeira. Poeira essa surgida após o
conflito ao qual eles se referem como Guerra Mundial Terminus. Um conflito
nuclear que tornou nosso planeta num ambiente sem quase nenhuma vida animal
diferente da humana (e nem toda vida humana do jeito como conhecemos).
Nesse mundo quase sem vida os animais domésticos (que não se
limitam aos clássicos cães e gato) agora são itens caríssimos e dignos apenas
dos mais ricos. Aqueles que ainda tiverem uma certa quantia podem usufruir de
uma outra opção. Na sociedade do livro os andróides já evoluíram a tal ponto
que mal são distinguíveis de criaturas comuns. Não a toa existem os Nexus-6 que
serão abordados a seguir e que chegam a receber a alcunha de replicantes no
lugar de andróides. E num mundo assim é possível se criar animais elétricos
externamente semelhantes a animais comuns, mas, como é deixado bem claro no
livro, é possível se notar com uma boa atenção que são diferentes. Seja pelo jeito
como se movem ou simplesmente pela sensação de não-naturalidade que exalam.
Então, um dia, o senhor Deckard recebe uma proposta. Caçar
seis andróides que vieram fugitivos de Marte (local colonizado pelos humanos no
universo do livro). Esses são andróides são chamados no filme de replicantes
graças a sua semelhança digna de replicas do corpo humano que vai até mesmo
internamente e que só poderia ser reconhecidas por meio de uma analise da medula
ou o teste Voigt-Kampff, teste esse que tem como objetivo medir a empatia de
uma pessoa e assim dar o parecer se ela apresenta ou não humanidade já que no
universo do livro demonstrar empatia é o que nos separa das maquinas.
Assim então começa esse romance policial futurista e
diferente do resto.
Ao longo da obra conhecemos mais sobre a vida de Deckard, de
sua esposa e dos andróides aos quais ele caça além de uma outra. Também sabemos
sobre a vida de um personagem não existente no filme, o senhor J R Isildore,
figura realmente muito interessante e para forma como o livro foi desenvolvido
é alguém fundamental para aumentar ainda mais a questão imposta como titulo da
obra.
Durante a caçada de Rick conhecemos também algo fundamental
para a trama, a mentalidade dos andróides perseguidos. Como eles possuem coisas
próximas anseios e, por que também não, sonhos? Durante sua jornada o caçador vai
até mesmo se tornar presa, terá sua própria existência humana questionada de
uma maneira que nos leva realmente a crer mesmo no final se aquele
questionamento seria assim tão incorreto. Conhecemos o senhor Wilbur Mercer e
sua religião baseada na, agora absurdamente importante, empatia.
Poderia ser apenas um livro de um romance policial. Mas não.
Dick nos oferece aqui um mundo futurista incrível e de visão única. Questionamentos
de nossa própria existência, do que nos torna tão diferentes não apenas de
maquinas, mas de outros animais e até de outras pessoas. Levanta dúvidas metafísicas
e as funde tão incrivelmente a obra que não é impossível continuar com essas
dúvidas após a excelente leitura. Você se sente dentro daquele mundo,
compartilhando cada duvida do protagonista, mas não necessariamente suas
respostas. E no final só será mais um dentro do universo caótico deste gênio.
Acho que não conseguiria mais desenvolver essa critica sem
dar duros spoilers ou falar sobre o filme (algo que não é meu real objetivo
aqui), então agora vou falar do design do livro em si. Com uma capa muitíssima interessante
composta de pontos e uma etiqueta com o nome pode até parecer uma obra com a
qual não foi tomada o devido cuidado e respeito, mas garanto que não tem disso
no trabalho da Aleph. E além da capa temos uma espécie de segunda capa que vem
junto ao livro indicando a qual filme deu origem.
Mas o que realmente me ganhou foi o material interno. Os extras
ao final da leitura. Contendo uma carta de PKD assim como sua última entrevista
onde o autor mostra o quão animado e no quanto acredita no filme que nunca viu
chegar as telonas. Além do que mais adorei e do porquê de não citar o filme
durante a resenha, um posfácio fantástico onde é debatido varias questões do
livro e diferenças entre a obra original e sua adaptação tão elogiada além de
vários pontos sobre a vida de Philip.
Então recomendo esse livro não apenas aos amantes de sci-fi,
mas também aqueles que querem conhecer e começar a ler essa irmã gêmea da
fantasia. Como também recomendo fortemente aos fãs do filme que ainda não tiveram
o prazer de ler. Conheçam, leiam e acima de tudo questionem essa obra prima
desse grande mestre da literatura.
Deixo-os então com minha nota sobre a obra, um mais que
sincero 9.5/10 e uma frase de Philip K. Dick.
“A realidade é aquilo que, quando você para de acreditar, não
desaparece”



Nenhum comentário:
Postar um comentário