Queridos leitores, deste humilde blog, hoje darei inicio ao
tipo de resenha que mais adoraria fazer neste blog e não poderia começar com
outro livro se não esse e talvez entendam depois o porquê. Resenhas sobre
literatura fantástica brasileira.
E não poderia começar a falar de tais livros sem falar do
livro de hoje, A Arma Escarlate.
“O ano é 1997. Em meio a um intenso tiroteio,
durante uma das épocas mais sangrentas da favela Santa Marta, um menino de 13
anos descobre que é bruxo. Jurado de morte pelos chefes do tráfico, Hugo foge
com apenas um objetivo em mente: aprender magia o suficiente para voltar e
enfrentar o bandido que está ameaçando sua família. Neste processo de
aprendizado, no entanto, ele pode acabar descobrindo o quanto de bandido há
dentro dele mesmo.”
“Como seria uma escola de bruxaria no Brasil?”. É
com está pergunta que a autora de hoje deu inicio ao seu livro. Renata Ventura,
29 anos, jornalista formada pela PUC do Rio e o alvo desta resenha junto ao seu
livro. Escritora pela editora Novo Século, esta carioca passou cinco anos escrevendo
o primeiro livro desta série que já conta com o segundo volume lançado,
ecriadora do projeto Potter em Orfanatos, projeto esse que incentiva a leitura
de Harry Potter para crianças em casas de acolhimento de todo o Brasil e já
conta com quase cinco mil membros espalhados por todo o país que querem levar a
todos a oportunidade de conhecer não apenas a literatura, mas se apaixonar por
ela e trazer mais cor a vida dessas pessoas.
Tudo começa com a história do auto-nomeado Hugo
Escarlate. Um jovem de onze anos, negro, de olhos verdes (sim, um negro de
olhos verdes), morador da favela Santa Marta no Rio de Janeiro (o palco da
sensacional música de Michael Jackson, Theydon’tcareabout us, e que está
fortemente relacionada ao livro), e marcado para morrer pelo trafico da região.
Então, em meio a um tiroteio, ele recebe aquilo que vai mudar a sua vida de uma
maneira que ele não conseguiria imaginar. Uma carta dizendo que ele era um
bruxo e estava convidado a ingressar em nada mais nada menos do que a escola de
bruxaria existente ali no próprio Rio. Nossa Senhora do Korkovado.
Para todos aqueles que esperam algo semelhante a
Harry Potter (no qual o universo dos livros não é apenas baseado, mas também
relacionado como se pode notar por várias referencias) acho que ficaram
desapontados e muito felizes em estarem desapontados. Não existem coisinhas
bonitinhas neste livro. Mas sim coisas realistas e sensacionais.
Renata nos traz para um universo bem mais maduro,
adulto e sanguinário do que os leitores da JK podem estar acostumados. Cheio de
debates sobre cultura, colonização, preconceito racial e social, este livro não
é para qualquer um. Aqui a autora irá lhe apresentar os mais carismáticos
personagens possíveis, desde o fofíssimo e de bom coração Capí ao safado e
divertidíssimo Viny, do sério e de poucas palavras Índio a maluca e sem noção
diretora Zoroastra. Aqui há pessoas para todos os gostos. Incluindo o
protagonista que em nada se assemelha ao clássico Harry, talvez apenas no
desconhecimento do novo universo que irá conhecer, mas somente a isso.
Hugo é impulsivo, de pavio curto, desconfiado e
movido pela vingança contra aqueles que o querem fazer mal. Marcado pela vida
na favela por feridas não apenas físicas e que vê na magia não uma porta para o
mundo mágico e para a felicidade, mas para a vingança que tanto almeja e para o
poder que tanto quer conquistar.
O senhor Escarlate jamais conheceu o pai. Vivendo
num container existente na favela (fato real, mesmo que esses containeres não
existam mais) com a mãe e a avó, ele nunca conheceu nada mais do que o cenário
de ódio e medo proporcionado pelo trafico e pelo descaso dos políticos par com
a região então é apenas isso que acha que pode proporcionar àqueles que tanto o
fizeram mal.
Uma obra que nos leva desde o melhor lado do fantástico mundo mágico brasileiro construído pela autora ao pior lado do mundo humano. Com tiroteios, venda e consumo de drogas e preconceitos, este livro nos traz não apenas uma história fantástica, mas também um debate interno que fica muito tempo após o livro. Com uma narrativa eletrizante e ao mesmo tempo filosófica, ficamos na cabeça, mesmo entre as pausas na leitura, com seus personagens bem construídos e diferentes como em toda boa história deve ter.
Ao final do livro não terá lido apenas um grande
enredo, mas também estará com um debate dentro de si. Algo que o personagem
principal também compartilhara. Temos pontos de vistas divergentes conflitando
não apenas ideologicamente e um Hugo que sofrerá do começo ao fim pelas suas
escolhas. Sofrimento esse em ambos os sentidos e que acarretará não em evolução
como observamos em protagonistas clássicos, mas sim num aumenta do seu ciclo de
ódio mostrando o quanto ele não é um mero personagem unilateral.
Esse livro é antes de um debate filosófico ou a mera
apresentação do universo que Renata tenta criar é uma verdadeira ode a cultura
brasileira. Com diálogos riquíssimos em gírias e sotaques de cada região que só
nos fazem ficar ainda mais dentro daquela história, acreditar ainda mais nos
seus fatos. Referências e criaturas do folclore brasileiro e das mitologias
indígenas. Magias ditas não na versão alterada de latim que estamos acostumadas
com a Rowling, mas sim em línguas que vão do Tupi ao Esperanto.
Com descrições históricas daquele período colocadas de
excelente maneira. Referências indo desde o mundo mágico que deu origem a tudo a
coisas da cultura pop e a história brasileira. Esse livro é mais do recomendado
a todos que buscam um bom livro envolvendo magia e, a melhor parte da qual
falarei agora, vindo de uma autora brasileira.
Algumas pessoas vêem os autores nacionais com certo
preconceito vindo talvez da leitura forçada de clássicos do colégio ou até o
complexo de vira-latas que temos. Ler Renata Ventura irá acabar com isso em
você. E se não fizer posso lhe fazer uma lista ainda maior de pessoas desta
nação que ganham de longe de muitos autores de fora.
A melhor parte de se ler um autor nacional é exatamente a
parte do nacional. Renata tem um grupo no facebook chamado de A Armada
Escarlate do qual faço parte desde 2013, ano no qual descobri e li o livro. Lá
poderá interagir não apenas com outros fãs, mas com a própria e fofíssima
autora além de seus personagens. Sim, os personagens do livro! A autora criou
perfis virtuais para seus personagens onde realmente os vemos interagindo com
os fãs, algo que pra mim conta como muitos pontos pra história.
Além disso, podemos usufruir de algo que todo bom fã anseia.
Autógrafos e debates com seus ídolos. Ler uma obra de um brasileiro pode
implicar em conhecê-lo um dia. Já tive o prazer de conhecer vários como Eduardo
Spohr, RaphaelDraccon, Carolina Munhoz, André Vianco e a própria Renata que
esteve aqui em Fortaleza durante a Bienal do Livro de 2014.
Garanto que poucas experiências são melhores para um viciado
em literatura do que conhecer e conversar com seu autor. Ter aquele autografo
dedicado a você. E as lembranças de todo o evento.
E com este comentário finalizo a resenha de hoje de um livro
com um merecido 8.8/10.


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