quinta-feira, 19 de março de 2015

A Leitura Escarlate

Queridos leitores, deste humilde blog, hoje darei inicio ao tipo de resenha que mais adoraria fazer neste blog e não poderia começar com outro livro se não esse e talvez entendam depois o porquê. Resenhas sobre literatura fantástica brasileira.

E não poderia começar a falar de tais livros sem falar do livro de hoje, A Arma Escarlate.



“O ano é 1997. Em meio a um intenso tiroteio, durante uma das épocas mais sangrentas da favela Santa Marta, um menino de 13 anos descobre que é bruxo. Jurado de morte pelos chefes do tráfico, Hugo foge com apenas um objetivo em mente: aprender magia o suficiente para voltar e enfrentar o bandido que está ameaçando sua família. Neste processo de aprendizado, no entanto, ele pode acabar descobrindo o quanto de bandido há dentro dele mesmo.”




“Como seria uma escola de bruxaria no Brasil?”. É com está pergunta que a autora de hoje deu inicio ao seu livro. Renata Ventura, 29 anos, jornalista formada pela PUC do Rio e o alvo desta resenha junto ao seu livro. Escritora pela editora Novo Século, esta carioca passou cinco anos escrevendo o primeiro livro desta série que já conta com o segundo volume lançado, ecriadora do projeto Potter em Orfanatos, projeto esse que incentiva a leitura de Harry Potter para crianças em casas de acolhimento de todo o Brasil e já conta com quase cinco mil membros espalhados por todo o país que querem levar a todos a oportunidade de conhecer não apenas a literatura, mas se apaixonar por ela e trazer mais cor a vida dessas pessoas.

Tudo começa com a história do auto-nomeado Hugo Escarlate. Um jovem de onze anos, negro, de olhos verdes (sim, um negro de olhos verdes), morador da favela Santa Marta no Rio de Janeiro (o palco da sensacional música de Michael Jackson, Theydon’tcareabout us, e que está fortemente relacionada ao livro), e marcado para morrer pelo trafico da região. Então, em meio a um tiroteio, ele recebe aquilo que vai mudar a sua vida de uma maneira que ele não conseguiria imaginar. Uma carta dizendo que ele era um bruxo e estava convidado a ingressar em nada mais nada menos do que a escola de bruxaria existente ali no próprio Rio. Nossa Senhora do Korkovado.

Para todos aqueles que esperam algo semelhante a Harry Potter (no qual o universo dos livros não é apenas baseado, mas também relacionado como se pode notar por várias referencias) acho que ficaram desapontados e muito felizes em estarem desapontados. Não existem coisinhas bonitinhas neste livro. Mas sim coisas realistas e sensacionais.

Renata nos traz para um universo bem mais maduro, adulto e sanguinário do que os leitores da JK podem estar acostumados. Cheio de debates sobre cultura, colonização, preconceito racial e social, este livro não é para qualquer um. Aqui a autora irá lhe apresentar os mais carismáticos personagens possíveis, desde o fofíssimo e de bom coração Capí ao safado e divertidíssimo Viny, do sério e de poucas palavras Índio a maluca e sem noção diretora Zoroastra. Aqui há pessoas para todos os gostos. Incluindo o protagonista que em nada se assemelha ao clássico Harry, talvez apenas no desconhecimento do novo universo que irá conhecer, mas somente a isso.

Hugo é impulsivo, de pavio curto, desconfiado e movido pela vingança contra aqueles que o querem fazer mal. Marcado pela vida na favela por feridas não apenas físicas e que vê na magia não uma porta para o mundo mágico e para a felicidade, mas para a vingança que tanto almeja e para o poder que tanto quer conquistar.

O senhor Escarlate jamais conheceu o pai. Vivendo num container existente na favela (fato real, mesmo que esses containeres não existam mais) com a mãe e a avó, ele nunca conheceu nada mais do que o cenário de ódio e medo proporcionado pelo trafico e pelo descaso dos políticos par com a região então é apenas isso que acha que pode proporcionar àqueles que tanto o fizeram mal.

Uma obra que nos leva desde o melhor lado do fantástico mundo mágico brasileiro construído pela autora ao pior lado do mundo humano. Com tiroteios, venda e consumo de drogas e preconceitos, este livro nos traz não apenas uma história fantástica, mas também um debate interno que fica muito tempo após o livro. Com uma narrativa eletrizante e ao mesmo tempo filosófica, ficamos na cabeça, mesmo entre as pausas na leitura, com seus personagens bem construídos e diferentes como em toda boa história deve ter.

Ao final do livro não terá lido apenas um grande enredo, mas também estará com um debate dentro de si. Algo que o personagem principal também compartilhara. Temos pontos de vistas divergentes conflitando não apenas ideologicamente e um Hugo que sofrerá do começo ao fim pelas suas escolhas. Sofrimento esse em ambos os sentidos e que acarretará não em evolução como observamos em protagonistas clássicos, mas sim num aumenta do seu ciclo de ódio mostrando o quanto ele não é um mero personagem unilateral.

Esse livro é antes de um debate filosófico ou a mera apresentação do universo que Renata tenta criar é uma verdadeira ode a cultura brasileira. Com diálogos riquíssimos em gírias e sotaques de cada região que só nos fazem ficar ainda mais dentro daquela história, acreditar ainda mais nos seus fatos. Referências e criaturas do folclore brasileiro e das mitologias indígenas. Magias ditas não na versão alterada de latim que estamos acostumadas com a Rowling, mas sim em línguas que vão do Tupi ao Esperanto.

Com descrições históricas daquele período colocadas de excelente maneira. Referências indo desde o mundo mágico que deu origem a tudo a coisas da cultura pop e a história brasileira. Esse livro é mais do recomendado a todos que buscam um bom livro envolvendo magia e, a melhor parte da qual falarei agora, vindo de uma autora brasileira.


Algumas pessoas vêem os autores nacionais com certo preconceito vindo talvez da leitura forçada de clássicos do colégio ou até o complexo de vira-latas que temos. Ler Renata Ventura irá acabar com isso em você. E se não fizer posso lhe fazer uma lista ainda maior de pessoas desta nação que ganham de longe de muitos autores de fora.

A melhor parte de se ler um autor nacional é exatamente a parte do nacional. Renata tem um grupo no facebook chamado de A Armada Escarlate do qual faço parte desde 2013, ano no qual descobri e li o livro. Lá poderá interagir não apenas com outros fãs, mas com a própria e fofíssima autora além de seus personagens. Sim, os personagens do livro! A autora criou perfis virtuais para seus personagens onde realmente os vemos interagindo com os fãs, algo que pra mim conta como muitos pontos pra história.

Além disso, podemos usufruir de algo que todo bom fã anseia. Autógrafos e debates com seus ídolos. Ler uma obra de um brasileiro pode implicar em conhecê-lo um dia. Já tive o prazer de conhecer vários como Eduardo Spohr, RaphaelDraccon, Carolina Munhoz, André Vianco e a própria Renata que esteve aqui em Fortaleza durante a Bienal do Livro de 2014.

Garanto que poucas experiências são melhores para um viciado em literatura do que conhecer e conversar com seu autor. Ter aquele autografo dedicado a você. E as lembranças de todo o evento.

E com este comentário finalizo a resenha de hoje de um livro com um merecido 8.8/10.

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